Por Andreyver Lima
“A tecnologia não surge no vácuo nem age de forma autônoma; ela é intrinsecamente um produto cultural, econômico e político”. A reflexão do sociólogo Manuel Castells talvez seja um dos melhores pontos de partida para compreender a revolução que estamos vivendo.
Durante três décadas, a internet foi o principal símbolo dessa transformação. Ela conectou pessoas, encurtou distâncias, democratizou o acesso à informação e reorganizou a economia global. Parecia o ápice da evolução tecnológica.
A inteligência artificial inaugura uma nova etapa da civilização digital. Se a internet construiu a infraestrutura da informação, a IA passa a reorganizar a própria produção de conteúdo.
É justamente por isso que ela pode ser considerada um fenômeno ainda maior.
O teórico da comunicação Marshall McLuhan afirmava que “o meio é a mensagem”. Sua tese é de que tecnologias não apenas transportam conteúdos; elas transformam a maneira como percebemos o mundo e nos relacionamos com ele.
Se a internet modificou nossa comunicação, a inteligência artificial começa a modificar nossa cognição.
Até poucos anos atrás, toda a dinâmica da rede dependia essencialmente da ação humana. Pessoas escreviam, pesquisavam, fotografavam, respondiam mensagens, programavam sistemas e produziam conhecimento.
Hoje, grande parte dessas atividades pode ser executada automaticamente.
A IA escreve artigos, cria imagens, produz vídeos, desenvolve códigos, analisa dados, responde clientes, organiza empresas e aprende continuamente a partir da interação com milhões de usuários.
Trata-se da automação da própria inteligência.
A humanização do algoritmo
Talvez a característica mais surpreendente desse novo cenário seja aquilo que podemos chamar de humanização do algoritmo, que apresenta sua verdadeira face sem mostrar o rosto.
Por meio do machine learning, a máquina deixa de apenas executar comandos previamente programados e passa a reconhecer padrões de comportamento, produzindo respostas cada vez mais naturais.
A conversa parece humana e as recomendações parecem espontâneas.
Mas, por trás dessa aparência, permanece um algoritmo alimentado por bilhões de dados.
É justamente esse fenômeno que dialoga com a análise da professora Shoshana Zuboff, autora de A Era do Capitalismo de Vigilância. Segundo ela, o modelo econômico das grandes plataformas digitais baseia-se na coleta sistemática de comportamentos humanos para prever e influenciar nossas futuras decisões.
Na era da inteligência artificial, essa lógica ganha uma dimensão inédita.
Nesse contexto, ganha força a discussão sobre a chamada “Teoria da Internet Morta”.
A cada dia, textos, imagens, vídeos, comentários e atendimentos são criados sem intervenção humana direta.
Em muitos ambientes digitais, já não sabemos se conversamos com outro ser humano ou com um modelo de linguagem treinado para simular comportamentos humanos.
Diante desse universo cada vez mais povoado por agentes artificiais, o grande desafio deixa de ser aprender a utilizar a internet.
Se no início dos anos 2000 falávamos em inclusão digital, hoje precisamos discutir letramento digital. Saber identificar conteúdos produzidos por IA e compreender como funcionam os algoritmos.
Talvez estejamos presenciando o fim de uma internet predominantemente humana. E compreender essa transformação será uma das tarefas mais importantes da nossa geração.
Referências
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra.
MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. Cultrix.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Intrínseca, 2021.

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